{"id":112,"date":"2008-02-02T09:39:35","date_gmt":"2008-02-02T12:39:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.brasilpassoapasso.com.br\/blog\/?p=106"},"modified":"2008-02-02T09:39:35","modified_gmt":"2008-02-02T12:39:35","slug":"itaunas-forros-e-espiritualidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.brasilpassoapasso.com.br\/?p=112","title":{"rendered":"Ita\u00fanas: forr\u00f3s e espiritualidade&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.brasilpassoapasso.com.br\/images\/images_blog\/itaunas01.jpg\" title=\"Ita\u00fanas\" alt=\"Ita\u00fanas\" height=\"227\" width=\"340\" \/><\/p>\n<p>Ita\u00fanas tamb\u00e9m pode ser considerada, assim como Trancoso, Canoa Quebrada, Pipa etc. uma destas p\u00e9rolas do litoral que sofreram uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. A vila tem um significado especial para n\u00f3s porque foi ali que em 1985 eu e Can\u00e1rio nos conhecemos e demos in\u00edcio a v\u00e1rios projetos, inclusive uma caminhada de Ita\u00fanas at\u00e9 Porto Seguro em 1993.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.brasilpassoapasso.com.br\/images\/images_blog\/itaunas02.jpg\" title=\"Julio\" alt=\"Julio\" height=\"227\" width=\"340\" \/><\/p>\n<p>Dos v\u00e1rios personagens que apresentamos a seguir, um que se encontra totalmente na ativa \u00e9 o nosso velho amigo J\u00falio, o primeiro \u201cestrangeiro\u201d a chegar e morar em Ita\u00fanas l\u00e1 pelos idos de 1979. Detalhe, eu fui o segundo! Hoje, nosso anfitri\u00e3o vive regendo a Nave, como chama a sua pousada, e tratando das coisas espirituais. J\u00falio \u00e9 uma das figuras mais influentes na hist\u00f3ria do Santo Daime que pratica at\u00e9 hoje, tendo inclusive a fa\u00e7anha de ter esculpido as portas do Templo, l\u00e1 no long\u00ednquo Mapi\u00e1, no Amazonas. Ainda hoje, fora de temporada, \u00e9 poss\u00edvel respirar espiritualidade pelas ruas de grama da ainda pacata e sonolenta Ita\u00fanas.<\/p>\n<p><strong>Ita\u00fanas do Esp\u00edrito Santo&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Conheci a Vila de Ita\u00fanas em 1980, por puro e simples acaso, quando alguns amigos de Vit\u00f3ria convidaram-me para passar o carnaval numa praia de Concei\u00e7\u00e3o da Barra, a 8 km da divisa com a Bahia. Foi amor \u00e0 primeira vista! Na d\u00e9cada anterior a antiga Vila de Ita\u00fanas havia sido coberta pelas dunas num fen\u00f4meno muito interessante. A vegeta\u00e7\u00e3o que circundava a vila foi cortada o que fez com que os fortes ventos que ali sopram cobrisse a cidade de areia. Este \u201cdesastre ecol\u00f3gico\u201d, de certa forma, acabou beneficiando a Ita\u00fanas de hoje, j\u00e1 que grande parte dos turistas v\u00e3o l\u00e1 para ver a cidade soterrada. O que causa uma tremenda decep\u00e7\u00e3o, no princ\u00edpio, porque eles chegam l\u00e1 e perguntam. Onde esta a cidade soterrada? Ao que os nativos prontamente respondem. Ora, embaixo das dunas&#8230; Em 1980 n\u00e3o havia \u00e1gua encanada, luz el\u00e9trica ou pousadas. Nem mesmo os nativos tinham o costume de hospedar as pessoas. Mas a amabilidade do povo de Ita\u00fanas era t\u00e3o forte que ningu\u00e9m ficava sem lugar para dormir. N\u00f3s tivemos o privil\u00e9gio de ficar hospedados na escolinha velha. Muitas vezes, pela manh\u00e3, acord\u00e1vamos sob o olhar admirado das crian\u00e7as que vinham nos bisbilhotar nas janelas. Os bares ainda eram poucos; Manoel, Naelson e Antero. O bar do Antero era o mais r\u00fastico, apenas uma casinha de adobe onde se vendia cip\u00f3-cravo (cacha\u00e7a t\u00edpica da regi\u00e3o) sempre e \u00e0s vezes cerveja. Mas era um dos mais freq\u00fcentados, porque era ali que aconteciam os forr\u00f3s mais animados. Sob a lua cheia soava a sanfona de Tulinho, os pandeiros de Paulo e Arnaldo, o viol\u00e3o de Valdemir al\u00e9m do reco-reco que ia de m\u00e3o em m\u00e3o. Havia um tronco que ia de uma porta a outra do bar onde todos ficavam agarrados, bebendo, conversando e logo namorando. Apelidamos o tronco de \u201cpau do Antero\u201d e n\u00e3o havia aquele que fosse a Ita\u00fanas naqueles tempos que n\u00e3o pegasse no \u201cpau do Antero\u201d. Entre as dunas na beira da praia, onde esta enterrada a Ita\u00fanas velha e a nova Ita\u00fanas esta o rio Ita\u00fanas (ita-pedra, una-negra) de \u00e1guas negras, por\u00e9m l\u00edmpidas. Como n\u00e3o havia ponte a travessia tanto da popula\u00e7\u00e3o nativa como dos turistas era feita por canoa. O melhor canoeiro da \u00e9poca foi o Valmirz\u00e3o, um caboclo de\u00a0 1.90 de altura que trabalhava das 6 da manh\u00e3 \u00e0s 6 da tarde levando passageiros e mercadorias. Tomava uma garrafa de cacha\u00e7a por dia mas no vigor da sua juventude e no esfor\u00e7o di\u00e1rio queimava esta energia muito bem. Depois que fizeram a ponte Valmirz\u00e3o perdeu o seu of\u00edcio de canoeiro e j\u00e1 ent\u00e3o o litro de cacha\u00e7a come\u00e7ou a prejudic\u00e1-lo. Passou por momentos dif\u00edceis, na sarjeta, mas com a ajuda dos amigos, hoje se pode v\u00ea-lo vindo do mar cruzando as dunas sob o forte calor de janeiro trazendo seu peixe para casa com um belo sorriso no rosto. Outro personagem folcl\u00f3rico de Ita\u00fanas era o Seu Tamandar\u00e9, que por amor ou teimosia, vivia do outro lado do rio brigando com as dunas. Atravess\u00e1vamos o rio de canoa e \u00edamos a p\u00e9 pelo caminho do Tamandar\u00e9. L\u00e1 sent\u00e1vamos pr\u00f3ximos a uma farinheira e ent\u00e3o tinha in\u00edcio o banquete tropical que quase sempre come\u00e7ava com a \u00e1gua de coco, depois a melancia, o abacaxi e \u00e0s vezes a cana. Muitos tinham de pensar duas vezes para prosseguir at\u00e9 a praia. O Tamandar\u00e9 nos deliciava tanto com o banquete (ele nunca sabia dizer o quanto era a despesa) como com suas hist\u00f3rias, os causos. Dali at\u00e9 a praia t\u00ednhamos de atravessar ainda um corredor entre as dunas aonde o vento n\u00e3o chegava e o calor era insuport\u00e1vel. Do lado de c\u00e1, na vila, ficavam os nativos mais velhos, debaixo de uma cabana coberta por palha de coco sob o forte sol de janeiro, deliciando-se com os turistas menos avisados que davam verdadeiros urros de terror quando pisavam nas areias escaldantes. A nova Ita\u00fanas j\u00e1 mudou bastante nestes \u00faltimos 28 anos. Mas a velha pr\u00e1tica de ir para as dunas no final da tarde para ver o p\u00f4r do sol n\u00e3o. Nos dia de lua cheia um espet\u00e1culo inesquec\u00edvel! A oeste o sol se pondo, tendo a contra luz cavalos que pastavam nos brejos imensos pr\u00f3ximos ao rio. A leste, a imensa lua cheia nascendo no mar. Num determinado momento pode-se estar entre o dia e a noite e a\u00ed sim, extasiados, voltar para Ita\u00fanas energizados para mais uma noite de forr\u00f3. N\u00e3o mais no \u201cpau do Antero\u201d, como antigamente, mas agora no Buraco do Tatu, de propriedade do Tatu, seu neto&#8230;<\/p>\n<p><strong>Ita\u00fanas al\u00e9m das dunas&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Conheci Ita\u00fanas h\u00e1 28 anos atr\u00e1s quando o \u00fanico bar do local era a palho\u00e7a do Manoel Nogueira. Como n\u00e3o havia luz a cerveja era conservada em caixas de isopor com gelo. Era comum o Seu Manoel ir dormir e n\u00f3s fic\u00e1vamos tomando cerveja e jogando conversa fora nas noites de lua. Pela manh\u00e3 ele contava os cascos e apresentava a conta. Foi ali que conheci Can\u00e1rio em 1985 e onde v\u00e1rios projetos surgiram. A vila tornou-se famosa devido a um desastre ecol\u00f3gico. Houve um corte descontrolado da vegeta\u00e7\u00e3o em torno da cidade e os fortes ventos fizeram com que enormes dunas cobrissem a cidade lentamente. Aos poucos as pessoas foram cruzando o rio e construindo a nova Ita\u00fanas. Isto foi na d\u00e9cada de 70. Hoje Ita\u00fanas tem \u00e1gua, luz, pousadas, restaurantes, uma base do Projeto TAMAR al\u00e9m de sediar o Parque Estadual de Ita\u00fanas. Mas a vila \u00e9 conhecida nacionalmente como a terra do forr\u00f3. \u00c9 comum no ver\u00e3o ou mesmo no m\u00eas de julho ver grupos de jovens universit\u00e1rios vindos de S\u00e3o Paulo e Belo Horizonte principalmente, invadir Ita\u00fanas para deliciar-se no Buraco do Tat\u00fa at\u00e9 o raiar do dia embalados pela xiboquinha (bebida t\u00edpica da regi\u00e3o). Ita\u00fanas como v\u00e1rios \u201cpara\u00edsos\u201d do litoral do Brasil tipo Jericoacoara, Trancoso, B\u00fazios, etc, mudou. Muita gente que visita a vila n\u00e3o imagina a quantidade de hist\u00f3rias e personagens que a vila produziu. Muitas destas pessoas faleceram como o Antero, Reivilzinho, Zico, Delmira. Cada um deles daria um livro. Mas, ainda hoje podemos conversar com alguns deles. Dona Tid\u00fa pode ser considera a madrinha da vila, j\u00e1 que todos ali passaram pelas suas m\u00e3os ao nascer. A maior parteira de Ita\u00fanas \u00e9 uma senhora negra e forte de cerca de 80 anos que n\u00e3o economiza palavras, conversar \u00e9 com ela mesma. Fala sobre tudo, principalmente das ervas medicinais da qual \u00e9 grande conhecedora. O que mais impressiona na Tid\u00fa \u00e9 que enquanto ela esta conversando sempre passa um ou outro para lhe pedir um conselho, tomar a ben\u00e7\u00e3o ou simplesmente ficar ali parado ouvindo suas hist\u00f3rias. \u00c9 uma l\u00edder nata. Ela aproveita tamb\u00e9m sempre para mandar um \u201cmoleque\u201d, um dos seus afilhados, ir \u00e0 venda comprar alguma coisa.<br \/>\nOutros dois personagens centrais de Ita\u00fanas s\u00e3o o Sr. Dodo e o mestre Antero, j\u00e1 falecidos. Este \u00faltimo era considerado o l\u00edder espiritual da vila. Grande contador de hist\u00f3rias era o maior incentivador do Ticumbi, manifesta\u00e7\u00e3o folcl\u00f3rica que representa a luta de mouros e crist\u00e3os encenada a mais de tr\u00eas s\u00e9culos. O Sr. Dodo era considerado o habitante mais bem humorado de Ita\u00fanas. Gostava de carnaval, dan\u00e7ar, cantar, mas sua maior divers\u00e3o mesmo era sacanear os outros. Eram brincadeiras leves, pegadinhas, sinaliza\u00e7\u00e3o para futuras amizades. Estas duas fam\u00edlias s\u00e3o propriet\u00e1rias de bares em pontos extremos da vila. De um lado esta o Paulo, filho do Antero, vasca\u00edno doente e diretor do Ita\u00fanas Futebol Clube. Do outro esta o Naelson, filho do Dodo, flamenguista doente. Eu e Can\u00e1rio que somos vasca\u00ednos doentes freq\u00fcentamos os dois bares, mas confesso que um dos maiores prazeres do mundo \u00e9 tomar uma cerveja no Naelson quando o Flamengo perde. Suas explica\u00e7\u00f5es \u201ct\u00e9cnicas\u201d sobre a derrota s\u00e3o hil\u00e1rias. Al\u00e9m disto, o bar do Naelson talvez seja o \u00faltimo de Ita\u00fanas onde os pescadores nativos ainda se re\u00fanem para tomar uma cachacinha e colocar os papos em dia. Ali podemos encontrar o Mestre Didi, pescador que at\u00e9 os 47 anos de idade era titular na ponta direita do Ita\u00fanas Futebol Clube. S\u00e3o pessoas simples, a alma da velha Ita\u00fanas, talvez os \u00faltimos que viveram e podem relatar as hist\u00f3rias da Ita\u00fanas engolida pelas areias. Nestes 28 anos acompanhei todo o processo de mudan\u00e7a da vila. A chegada da luz e da televis\u00e3o foi impactante. Depois a instala\u00e7\u00e3o do Parque Estadual e a consci\u00eancia ecol\u00f3gica. Por \u00faltimo o boom das pousadas e restaurantes. Muita coisa mudou para a popula\u00e7\u00e3o de Ita\u00fanas, e para melhor sem d\u00favida. Quem visitar Ita\u00fanas com certeza vai deliciar-se com suas \u00e1guas mornas, com o belo p\u00f4r do sol visto das dunas, com a moqueca da Teresa, e claro, com o forr\u00f3 l\u00e1 no Buraco do Tat\u00fa. Mas se poss\u00edvel, passe uma tarde no bar do Naelson sem fazer nada , s\u00f3 olhando, observando as pessoas. Quem sabe se voce tamb\u00e9m n\u00e3o encontra com a Tid\u00fa pela rua e receba uma receita de ch\u00e1 ou, com sorte, algum conselho. Com certeza ela n\u00e3o vai cobrar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ita\u00fanas tamb\u00e9m pode ser considerada, assim como Trancoso, Canoa Quebrada, Pipa etc. uma destas p\u00e9rolas do litoral que sofreram uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas. 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